O abominável reinado do Brown Nose

Brown Nose (nariz marrom em inglês) ou brown noser é aquele cachorrinho que fica cheirando o traseiro de outros cachorros maiores o que faz com que seu nariz se torne permanentemente marrom.

Brown Nose também é como os americanos denominam o nosso velho conhecido puxa saco.

Esta execrável figura permeia praticamente todas as organizações.

O Brown Nose sempre diz exatamente aquilo que o chefe quer ouvir. Não tem personalidade própria. É uma das figuras mais nefandas que podem se desenvolver numa empresa devido à sua incapacidade aliada a um grande senso de oportunidade. Está sempre no lugar certo, ou seja, atrás do chefe. Seu faro aguçado o faz descobrir tudo o que pode agradar ao chefe e até mesmo antecipar aquilo que ele virá a pensar.

O Brown Noser é, em princípio, uma criatura sem escrúpulos. Sua sobrevivência se alicerça na capacidade inata de estar sempre pronto para aplaudir tudo o que o chefe disser, mesmo que isto signifique passar por cima de todo mundo, provocar grandes injustiças a seus colegas e prejuízos incalculáveis à própria empresa.

Quando o chefe é uma pessoa de personalidade fraca, o Brown Noser deita e rola inflando o seu ego. Concordando com tudo, estimula na cabeça do chefe a sensação de poder e inteligência. Cada idéia parece uma verdadeira revelação, pois o aplauso não se faz esperar.

Em nossas andanças de muitos anos nos mais diferentes tipos de empresas, deparamo-nos inúmeras vezes com estas criaturas abjetas. Poderíamos contar várias histórias sobre as peripécias de Brown Nosers profissionais, mas nenhuma delas teria o brilho de um episódio narrado por Kaoru Ishikawa, o qual provavelmente já é do conhecimento de todo mundo. Mas lembrá-lo servirá para engrandecer sobremaneira nosso argumento.

Como todo mundo sabe, Kaoru Ishikawa foi o pai do TQC japonês e criador dos Círculos de Controle de Qualidade.

Ishikawa, prestando consultoria em um conglomerado americano do ramo alimentício, deparou-se com um Brown Noser profissional, da pior espécie.

Já no primeiro contato, Ishikawa, experiente conhecedor de personalidades, identificou a criatura. Quando o CEO da empresa comunicou à equipe que estava contratando Ishikawa como consultor na área de qualidade, o Brown Noser saltou parabenizando o chefe por sua grande idéia:

“Ninguém melhor que o Doutor Ishikawa para resolver os problemas de qualidade, aliás, muito graves, dos quais não temos conseguido nos libertar nestes últimos três anos”.

Mas Ishikawa não trabalhava de graça, muito pelo contrário, e o Brown Noser, conhecedor da permanente preocupação do CEO com a ocorrência de qualquer custo excepcional, preparou antecipadamente seu discurso para o momento em que o chefe viesse a mencionar os valores investidos no projeto.

Tiro e queda.

Poucos meses após o início dos trabalhos, com os índices de qualidade em franca ascensão, então muito superiores aqueles anteriormente praticados, o chefe, em reunião privada com os membros de seu staff  questionou, retoricamente, se julgavam necessário continuar mantendo a consultoria de Ishikawa.

Imediatamente o Brown Noser, interpretando o pensamento do chefe que parecia estar querendo economizar em cima da consultoria, respondeu com toda a convicção, que não era mais necessário manter o contrato com Ishikawa:

“Temos todas as condições de melhorar os índices de qualidade sem ajuda externa. É nossa obrigação confiar na nossa equipe.”

Acontece que o chefe já tinha sido alertado por Ishikawa sobre a extrema capacidade de mimetização do Brown Noser e deu corda:

“Tem certeza que sem auxílio externo resolveremos todos os nossos problemas de qualidade?”

“Certeza total, chefe”, vaticinou o Brown Noser.

“Então, perguntou o CEO, por que amargamos tanto tempo com níveis de qualidade deploráveis, massacrados por reclamações e devoluções por parte dos clientes?“ “Por que só agora você vem me dizer que a equipe tem todas as condições de resolver todos os problemas que até hoje não foram resolvidos?” “Por que você não assumiu sua responsabilidade, ficou esperando até eu contratar uma consultoria paga a peso de ouro para resolver um problema, até poucos dias sem solução, para vir me dizer que agora a própria equipe tem condições de resolvê-lo?”

Resumo da história: o Brown Noser foi amargar seus dias no olho da rua. Infelizmente com muitos anos de atraso.

A partir daquele dia, a qualidade realmente continuou melhorando em função do trabalho e do empenho da equipe, a qual, por muito tempo ainda, contou com a sábia orientação do experiente Kaoru Ishikawa que, por sua longa experiência, mesmo não sendo gaúcho, reconhecia o cego dormindo e o rengo sentado.

Ishikawa afirmou que se sentiu muito mais gratificado por ter podido ensinar o CEO da empresa a avaliar com sabedoria o caráter de seus executivos, distinguindo aqueles possuidores de talentos verdadeiros, dos Brown Nosers, criaturas inúteis e peçonhentas, do que pela própria vitória na melhoria da qualidade.

Nas implantações do Modelo GAIA – Gestão através de Ideias Atratoras a primeira coisa que sempre procuramos fazer é identificar o Brown Noser e alertar o empresário sobre seus malabarismos. Não foi nem uma nem duas vezes que, após os primeiros saltos na produtividade a deplorável figura, querendo manter seu pseudo-status perante o chefe, se manifestou contra o trabalho. A arenga é sempre a mesma: “Podemos fazer sozinhos.” “Não precisamos continuar pagando alguém de fora para nos dizer aquilo que já sabemos”. Mas a pergunta que não quer calar continua também sendo sempre a mesma: “Se sabem, por que não fizeram?”

Por incrível que pareça, encontram-se às mancheias, executivos que não conseguem enxergar os malefícios que estas pragas, agindo como verdadeiros cupins causam às suas organizações, e que continuam acreditando nas lorotas contadas pelos Brown Nosers, como se fosse razoável admitir que, alguém que nunca tenha resolvido um problema, repentinamente, como que por um passe de mágica, receba uma iluminação do além e saia resolvendo todos, mesmo aqueles nos quais tropeçou a vida inteira.

O abominável reinado do Brown Nose

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