O paradoxo dos gêmeos

Uma das ideias mais geniais de Einstein foi a relatividade do tempo em função da velocidade.

Ela pode ser representada pela ideia dos dois irmãos gêmeos que se separam quando um deles empreende uma viagem espacial em uma nave com velocidade próxima à da luz. Quando este retorna, o tempo para ele passou mais lentamente do que para o irmão que ficou em casa, para o qual a vida teria avançado em maior velocidade. Mesmo continuando gêmeos as suas idades ter-se-iam tornado completamente diferentes.

Mas eu puxei este assunto para falar de outro tipo de paradoxo de gêmeos. É o paradoxo no tratamento dado por uma empresa fictícia do ramo metalmecânico a dois irmãos gêmeos um dos quais se tornou torneiro mecânico e o outro pedreiro azulejista.

O torneiro mecânico é contratado por esta empresa para exercer sua função produzindo peças usinadas passando a fazer parte do quadro de funcionários.

Tempos depois a mesma empresa precisa fazer reparos nos toaletes da área administrativa e contrata o serviço do irmão pedreiro azulejista.

Aí começa o paradoxo dos gêmeos.

Ainda que sejam irmãos praticamente idênticos, ambos exercendo suas especialidades na mesma empresa, o tratamento dado a cada um deles é completamente diferente.

O paradoxo não é temporal e sim conceitual.

O torneiro mecânico, como empregado da empresa, é visto como um ser humano que precisa ser incentivado a produzir mais e melhor, que precisa de atenção, de treinamento se não estiver cumprindo suas obrigações, é ouvido em suas necessidades e até mesmo perdoado pelos seus erros em função de sua origem humilde e sua pouca cultura.

O pedreiro azulejista não tem nenhuma destas regalias. Ninguém vai falar com ele para saber se ele tem algum problema pessoal, ninguém perdoa seus erros e, se o trabalho não estiver a contento pode até mesmo sofrer rompimento do contrato.

O primeiro é um ser humano; o segundo uma empresa individual.

Como pessoas são praticamente iguais em quase todos os aspectos, porém são vistos pela empresa como duas entidades completamente diferentes.

Haveria alguma razão para esta diferenciação entre eles?

Não creio que devesse haver. A diferenciação entre os tratamentos existe apenas em função dos conceitos disseminados nas empresas emanados das teorias administrativas que as assolam.

O irmão pedreiro azulejista é tratado exclusivamente com justiça. O torneiro mecânico com complacência.

O que foi acordado entre empresa contratante e pedreiro contratado é de pleno conhecimento de ambas as partes. Cada uma conhece claramente os direitos e deveres mútuos, e exigir seus direitos ou sujeitar-se à cobrança de seus deveres são ações plenamente naturais, aceitáveis e consideradas justas.

A distorção não está no relacionamento entre a empresa e o pedreiro azulejista e sim entre empresa e o torneiro mecânico. Este relacionamento, pelos seus atavismos paternalistas, deixa de ser justo e por isso torna-se frágil e desmotivador.

As empresas investem muito tempo e dinheiro procurando mecanismos que suscitem a motivação de seus funcionários ao mesmo tempo que esquecem que as pessoas esperam justiça e não caridade.

Não está na essência do ser humano ser carente e dependente. Isto o desprestigia, baixa seu moral e acaba tornando-o um ser diminuído perante si mesmo e consequentemente desmotivado.

Este mesmo funcionário insatisfeito na empresa, fora dela pode ser um líder de bairro, um artista, um pastor religioso ou uma pessoa de relevante expressão devido a outras habilidades jamais exploradas pela empresa. Pode viver feliz na vida real e infeliz justamente no lugar que lhe proporciona meios para sobreviver, evoluir e se realizar como ser humano.

A grande revolução na produtividade se dará a partir do momento em que a empresa passar a enxergar seus funcionários como profissionais e a tratá-los como tal. Esta mudança resgatará o que de melhor o ser humano tem que é sua honra e sua dignidade.

A justiça no relacionamento tem um poder tão grande que transforma pessoas e empresas, tornando ambas as entidades efetivamente profissionais, eliminando de uma vez por todas o infeliz paradoxo conceitual dos gêmeos trabalhadores.

O paradoxo dos gêmeos

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