A injustiça é a mãe da desmotivação

A vida real ensina tudo.

Quando eu era gerente de controle de qualidade e tratamentos térmicos na Albarus em Porto Alegre, ocorreu este episódio que me marcou profundamente.

Trabalhava comigo uma equipe de excelentes inspetores de qualidade altamente motivados. Desta equipe, cinco, os mais antigos, tinham um salário um pouco diferenciado dos demais mais novos.

Uma tarde, um dos cinco pediu para falar comigo. Estava muito chateado e parecia realmente abalado.

Chamei-o à minha sala e deixei que ele manifestasse a razão pela qual se sentia tão desmotivado. A resposta me surpreendeu.

– O fulano, o beltrano e o sicrano ganham mais do que eu.

Não me lembrava exatamente de quanto eles ganhavam e muito menos que tivesse sido feita alguma alteração em seus salários, o que me deixou sem argumentos para qualquer explicação.

Foi então que me lembrei de que tinha na minha gaveta uma listagem salarial recém recebida do DP e resolvi consultá-la na frente do funcionário.

Procurei pelo seu nome que, pela antiguidade, se encontrava junto com seus quatro colegas e constatei que os cinco continuavam recebendo exatamente o mesmo salário.

Peguei a folha, dobrei-a para que aparecessem apenas os cinco nomes e mostrei a ele para que constatasse com os próprios olhos. Ele me disse espantado:

– Mas são todos iguais!

– Sim – respondi -, vocês cinco ganham exatamente o mesmo salário.

Emocionado, o funcionário se levantou, apertou-me a mão e disse:

– Jacques, muito obrigado.

Até hoje continuo visualizando-o emocionado me agradecendo por alguma coisa que eu não tinha feito. A única coisa foi mostrar a ele que os colegas tinham mentido somente para cutucá-lo por brincadeira, o que levou sua imaginação a vislumbrar uma grande INJUSTIÇA. Por quê estaria ele ganhando menos que os colegas?

O alívio que ele teve ao saber da igualdade salarial continua me tocando. Não ganhou nada a mais, mas ficou extremamente satisfeito em saber que os colegas que eram tão antigos e que faziam o mesmo trabalho não ganhavam mais do que ele.


Diferenciações salariais para a mesma função são universais. Um operador brasileiro sabe que ganha menos que um operador alemão. E também sabe que ganha menos que um operador de alguma outra empresa de São Paulo ou até mesmo de sua própria cidade. Isto não o desmotiva porque se trata de algo distante. Porém quando a diferença acontece no seu próprio grupo torna-se algo devastador não por causa do salário em si, mas pelo desprestígio que a diferença salarial pode significar.

Não posso citar o nome, mas me lembro daquela figura alta, magra e loira com os olhos marejados me agradecendo por nada ter feito, nem para mais e nem para menos.

A JUSTIÇA ficou restabelecida em sua cabeça, e isto foi suficiente para devolver-lhe a motivação e a energia para continuar desempenhando um ótimo trabalho.

A injustiça é a mãe da desmotivação

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