A falácia dos programas motivacionais

Há um antigo conto popular que narra a história de um velho médico e seu filho.

Após muitos anos de exercício da medicina, e vendo seu jovem filho recém-formado iniciar a carreira no mesmo ramo, o velho médico resolveu fazer o que nunca havia feito em toda a sua vida: tirar umas merecidas férias.

Para não deixar seus pacientes de longos anos sem assistência, delegou ao seu filho a responsabilidade pelo seu atendimento.

Dois meses depois retorna o pai e encontra o filho esfuziante.

– Papai, gritou o filho com grande alegria, sabe aquela tosse renitente do seu Antônio que não sarava nunca? Pois mudei a medicação e ele está curado.

– Desgraçado, praguejou o pai, acabaste de matar a fonte dos recursos que pagaram a tua faculdade.

Muito mais renitente do que a tosse do seu Antônio é a chaga da desmotivação das pessoas nas empresas.

Grandes gurus secundados por miríades de subespecialistas em programas motivacionais vêm mantendo aberta a ferida que os sustenta desde os tempos de Mayo, trocando unguentos por cataplasmas, mas garantindo que a inflamação não ceda, mantendo viva, desta forma, a sua inesgotável fonte de recursos.

Após mais de 100 anos de treinamentos, programas motivacionais, multiplicação dos tipos de líderes que, dos 3 iniciais, autoritário, democrático e liberal, já se transmutaram em centenas de derivados os mais exóticos possíveis, todos com uma característica idêntica: não resolvem o problema da falta de liderança, a cada dia surge uma nova ideia genial que vai resolver todos os problemas de gestão empresarial.

Há 106 anos Santos Dumont fez o voo inaugural do 14-Bis nos céus de Paris, elevando do chão um objeto mais pesado que o ar o qual voou por 220 metros a 6 de altura durante 21 minutos. A evolução da tecnologia aeronáutica em apenas 63 anos colocou o homem na lua.

Há 120 anos a Mecânica Quântica ensaiava seus primeiros passos, e a 105, Einstein apresentava ao mundo a Teoria da Relatividade Geral. De lá para cá tivemos as bombas, as usinas, os submarinos, os aceleradores de partículas e até naves espaciais com propulsão nuclear, além de inúmeras outras aplicações da radioatividade principalmente na área médica.

Em 1920 foi inaugurada a primeira emissora de rádio com licença governamental do mundo, a KDKA em Pittsburgh nos Estados Unidos, e em 1922 a primeira brasileira, a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, a PRA-2. Hoje vivemos mergulhados na internet que nos põe instantaneamente a par de qualquer acontecimento ao redor do globo terrestre e até mesmo fora dele nos confins do sistema solar, com os inevitáveis delays decorrentes das gigantescas distâncias interplanetárias.

A medicina, a psicologia, a física, a química, a aeronáutica, as comunicações e, em suma, todo o conhecimento humano evoluiu fantasticamente nestes últimos 100 anos. Neste mesmo período, a evolução da motivação empresarial foi pífia. Em vez de saltarem para as naves espaciais, os gurus da liderança e motivação continuam reproduzindo multicoloridas cópias do primitivo 14-Bis.

Motivação e liderança continuam sendo o tema do momento, permanentemente renovado.

Não parece que há algo de muito errado quando se constata 100 anos depois de Mayo que os líderes ainda não saibam liderar e que as empresas continuem não conseguindo fazer com que as pessoas se motivem pelo seu trabalho? Estes 100 anos de evolução praticamente nula na solução destes problemas não lembram a manutenção da tosse crônica do seu Antônio? Não estarão os gurus apenas inventando modas administrativas para continuar faturando em cima de empresários incautos?

É um assunto para pensar.

Extraído do livro do autor: O fim das falácias sobre gestão de pessoas, liderança e motivação. – Tudo o que te contaram era mentira.

A falácia dos programas motivacionais

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